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Entrevista com Mary Porto

 

mary

Entrevista realizada em 14/10/2002

Como você chegou à Terapia Artística?

A minha formação é em pintura. Desde os quinze anos de idade, sempre fui pintora, sempre estudei pintura, sempre fui aquarelista. E sempre estudei filosofia junto com a pintura. Pintura e filosofia sempre foram inquietações, perguntas da minha alma. Eu dei aulas de pintura, de aquarela e de desenho durante muitos anos e notava que certos exercícios de pintura que tinham determinadas cores e formas mexiam demais com as pessoas, que ficavam deprimidas ou impacientes. Outras abandonavam as aulas. Então percebi a força que tinha aquele trabalho na alma de quem o executava. Mas eu sempre achei que aquilo era uma decorrência da própria arte. Tanto que, quando a pessoa tinha algum problema, eu a encaminhava para um psicólogo. Até que um dia fui procurada por uma pesssoa que pretendia ter aulas de pintura porque, segundo ela, estava fazendo um curso de Terapia Artística onde não se ensinava a pintar, mas só "para que serve pintar". A partir daí eu fechei meu ateliê, parei de dar aulas e fui estudar Terapia Artística. Nesse momento, eu também passei por uma crise pessoal em outro âmbito e tive, então, a oportunidade de refazer a minha vida. No curso, o mistério da pintura foi se desvelando para mim. Ele se fundamentava na Antroposofia e se diferenciava da arteterapia. Descobri que, assim como um médico usa um medicamento, o terapeuta artístico usa exercícios artísticos. Ele "dosa" formas e cores. Não se trata de pintura livre, livre expressão ou catarse, mas de um movimento em outra direção.

Fale um pouco sobre o objeto da Terapia Artística e o que você vem observando no trabalho com os pacientes.

Na Terapia Artística antroposófica, trabalhamos com dois movimentos bem nítidos, bem objetivos: contração e expansão. Este é o grande ritmo do universo. Pode-se usar também a expressão ponto e periferia, correspondendo a contração e expansão. Ainda do ponto de vista da Antroposofia, as doenças que contraem são chamadas frias e doenças que expandem são chamadas inflamatórias. Esses processos estão tanto no corpo quanto na alma. Se um paciente traz um quadro de doença fria, contrativa, pensa-se imediatamente no azul porque é essa a cor que contrai. Que movimento devo solicitar que a pessoa faça? O contramovimento. Ela tem que fazer uma expansão com o uso da cor e começar a ser abrir e esquentar. Essa pessoa está contraída em um "ponto". Através de exercícios terapêutico-artísticos, ela vai se expandindo em direção à periferia. Nesse caso, ela faz um caminho do azul ao laranja, que é sua cor complementar, obtendo, consequentemente, o calor que estava faltando. Por outro lado, se um paciente chega, por exemplo, com um quadro inflamatório ou histérico, está na periferia, muito para fora. Então temos que fazer com que ele se volte para dentro por meio das cores. O amarelo é a cor da expansão. Posso voltar com a cor que é complementar, ou seja, o lilás. O processo parte sempre de onde o paciente está e, através dos exercícios, criamos condições para que ele conquiste a "cor oposta" e, assim, o seu equilíbrio. Temos exercícios que favorecem à pessoa um caminhar lento, passo a passo, ritmicamente. Não há mágica. A pessoa tem que se encaminhar para a cura, conquistar a cura.

Fale um pouco sobre os papéis do terapeuta e do paciente na Terapia Artística.

A Terapia Artística é uma terapia não verbal. É terapia de imagens. Ou seja, o trabalho é no papel o tempo inteiro. Existe sempre o triângulo paciente - terapeuta - obra. O diálogo não é do paciente com o terapeuta. A referência é sempre ao trabalho, a avaliação é sempre triangular. Eu nunca digo: "Você está assim ou assado". Digo: "O que você percebeu, o que você sentiu ao pintar tal cor?". Quer dizer, sempre temos um outro campo de atuação. Não é uma relação direta, é uma relação intermediada. Apesar de não ser verbal, é uma terapia que exige uma atividade enorme. O paciente tem que ficar muito ativo. Não posso obrigar ninguém a pintar. Um psicólogo pode ficar com o paciente calado à sua frente e ele pode interpretar o silêncio. No entanto, se a pessoa não fez um risco no papel, eu não tenho material. A pessoa tem que manifestar algo, nem que seja irritação ou agressão. Alguma coisa tem que ser posta ali. Nunca me aconteceu de alguém se negar a pintar. Pinta de má vontade, pinta meio empurrada, fura um pouco o papel, mas pinta. E aí eu tenho material de trabalho. Na Antroposofia, trabalhamos o tempo inteiro na direção de chamar o Eu da pessoa. O Eu é aquela entidade dentro do ser humano que proporciona a autoconsciência. É o cerne da personalidade que muitas vezes está adormecido, embrutecido, desligado, enevoado, mal pintado, esboroado em termos de pintura. No momento em que começamos a trabalhar, alguma coisa vai se manifestando, clareando. Há uma identificação do paciente com esse núcleo do quadro que começa a aparecer e a vontade de pintar vem a partir do Eu, que atua sobre o querer da pessoa. O Eu quer se manifestar e faz o querer atuar. O papel do terapeuta é mobilizar, ficar o tempo inteiro como um Eu secundário quando a pessoa está muito lesada, muito doente, muito impossibilitada. O Terapeuta fica do lado, abdica do próprio Eu e atua como o Eu do paciente – não ego. Fica ali, captando o que seria o movimento e estimulado, apoiando. Lentamente, então, a ideia é de que o Eu do outro acorde e se sintonize. Eu também gosto de pensar que existe uma guerra da luz com as sombras. Há um papel em branco extremamente iluminado e, dentro da alma, está o negro. Dentro da alma do paciente há um lugar pesado. Quando as cores começam a preencher o papel, aquele branco começa a ser revelado. A pessoa começa a tirar um pouco da luz; alguma coisa sai do paciente e se derrama no papel, para que aquilo tudo depois não vire um papel só preto, não vire uma maçaroca, é necessário organizar o que está saindo, e talvez aí entre o papel organizador da arte. Começa-se a organizar cores e formas. Assim, o que sai do paciente vai preenchendo o papel organizadamente.

É o terapeuta, então, que ajuda a organizar?

Sim, porque ele é o Eu auxiliar e vai dando pequenos "toques" como, por exemplo "troca o pincel", "enxuga um pouquinho", "faça movimentos de dentro para fora ou de fora para dentro". É um facilitador. É um grande parteiro, parteiro do Eu do outro.

Como você avalia seus pacientes e planeja o tratamento?

Quando o paciente é enviado por médico antroposófico, já vem com um diagnóstico. Os médicos antroposóficos conhecem a Terapia Artística e muitas vezes já fazem o encaminhamento com uma indicação do tipo "pintar tal cor, fazer tal exercício, fazer desenho de forma". Mesmo assim eu sempre começo com uma pintura livre, assim como o paciente que chega pelas mãos de outros médicos ou psicólogos, ou através de pessoas que já estão fazendo Terapia Artística. Digo, sempre, que não interessa o que a pessoa tem. Enquanto não pintou na minha frente não sei quem é aquela pessoa. A pintura não é como a pessoa é, e sim como ela está. É como uma radiografia, um exame de sangue. Tanto que eu faço sempre essas pinturas livres intercaladas com o processo todo. Se eu quero saber como a pessoa está, dou um desenho livre e é muito interessante que, muitas vezes, o tema do primeiro desenho volta dali a um ano, extremamente modificado, porque a pessoa já pintou bastante, mas volta. Às vezes é a mesma forma ou a mesma cor. É muito bonito ver que há um padrão interno da pessoa, que está ali. Mas, voltando ao início do processo, eu posso pedir um, dois ou três trabalhos livres, porque nem sempre um só é suficiente para fazer uma avaliação mais real. Assim, eu vou formando uma imagem. O que vejo nessa imagem? O que existe em excesso e o que falta. Excesso de uma cor indica que esta cor está dominando dentro da pessoa. No físico, no mental, no psiquismo, tem um excesso de tal energia. Falta de determinada cor quer dizer a mesma coisa. É como um exame metabólico: falta vitamina A, falta vitamina C. Então começo a fazer uma imagem do que aquela pessoa precisa, por onde começará o equilíbrio. O que ela tem em excesso precisa ser rebaixado e o que lhe falta, ser aumentado. Aí começa o processo. Eu escolho os exercícios baseados nessa leitura que faço. O paciente não tem consciência do que está colocando. Como é não verbal, não preciso explicar. Tudo acontece através das imagens. É muito interessante porque ele olha sua pintura e diz: "Nossa! Como pintei com vermelho!". A pessoa vê, o processo é visual. Ela percebe que há, ali, um derramamento ou um excesso de formas ou, ainda, que as formas são muito fechadas. Às vezes, elaborar mentalmente é muito complicado. Ver é mais fácil. No processo da palavra, só existem queixas, queixas e mais queixas. Mas a forma sai tão livre, tão espontânea que é muito fácil de ver. Aquilo não é nunca retirado do paciente. Nunca se diz "isso está errado, isso não se faz". Está tudo ali. Apenas vão sendo acrescentadas novas coisas, sugere-se que o paciente entre em um outro processo, no qual esses elementos serão usados de uma determinada forma. Um outro recurso da Terapia Artística antroposófica é a teoria dos temperamentos. Cada temperamento tem a sua cor e é muito fácil ver quando um paciente é colérico ou melancólico. Difícil é avaliar uma pessoa que tem um temperamento e vive, no momento, um outro. Como a pessoa está, muitas vezes, é diferente de como ela é. É por isso que adoecemos, porque há um conflito. Na Terapia Artística, vamos em busca da harmonia por meio das cores.

Como o material é interpretado?

Eu não interpreto de forma psicológica, mas sim de forma artística. A ideia é que as leis da arte são espirituais. E o que é uma lei espiritual? É uma lei que funciona em todo o planeta, para todas as pessoas. Funciona no universo. A lei da gravidade, por exemplo, é uma lei física, mas é uma lei espiritual porque é universal. As leis matemáticas são leis matemáticas, mas são também leis espirituais. Funcionam para esquimós, chineses e nova-iorquinos. O resultado de 1+1 é sempre 2. Não interessa em que lugar do mundo. As leis da arte também são assim. Amarelo com azul sempre dá verde, em qualquer civilização que já existiu ou que existirá. Então, isso é uma lei espiritual. Essa é a interpretação que eu dou, mas que está embutida nessa organização que a arte permite. Se temos uma desorganização artística, a ideia é a de que há uma desorganização também no paciente e interpretação é sempre dada a partir desse ponto de vista. Por que esse amarelo com azul não dá verde? Vamos pesquisar por que não dá verde. O que está faltando aqui?

Recentemente, você organizou uma exposição com o tema "Mandalas". Por que mandalas?

Comecei a trabalhar com as mandalas há muito anos. Eu não era nem terapeuta, fazia só trabalho artístico. Iniciei uma pesquisa pessoal a partir da leitura de Jung e fiquei muito impressionada com toda a referência que ele faz às mandalas. Quando li que Jung, todos os dias, fazia uma mandala para ver como ele estava, comecei a tentar fazer a mesma coisa. Ele não usava a mandala como expressão, mas como avaliação para se ver internamente, para conhecer seu inconsciente. Ele não fazia o contrário, isto é, se estava bem então desenhava uma mandala. Talvez tenha sido a primeira dica de que a mandala poderia ser um exercício terapêutico. Comecei a levar os meus pacientes a fazer esse trabalho, no sentido mesmo de conquistar o centro. A mandala traz a diferenciação dentro/fora que corresponde à ideia da antroposofia, já mencionada, de ponto e periferia. Passei pelo processo da subdivisão interna da mandala, relacionando-a com a numerologia, fazendo um processo que vai do um ao sete. São sete trabalhos ao todo. Comecei a organizar e a aplicar isso e o resultado foi fantástico. Percebia-se o amadurecimento interno das pessoas que passavam pelo processo das mandalas.
É importante esclarecer que nem todos podem fazer logo uma mandala. É preciso estar pronto, tem que ter passado algum tempo pintando, porque, na mandala, eu uso a técnica do velado, que é mais difícil pois pinta-se no papel seco. É preciso fazer exercícios preliminares para conhecer o velado. É preciso, também, estar em um momento de indagação interna: "Quem sou eu?". Geralmente a pessoa que chega com um processo de adoecimento não se faz essa pergunta. Ela pode se fazer "n" outras perguntas, mas ainda não tem esse núcleo ainda muito claro. Vai chegando lá aos poucos. A mandala é algo reflexivo. Deve ser pintada e depois contemplada. São sete mandalas. É um processo de interiorização.

E quais são as técnicas utilizadas na Terapia Artística e para quem elas são recomendadas?

A Terapia Artística antroposófica não se resume à pintura. A base é a aquarela sobre papel molhado e aquarela em velado. Mas, também há a argila, o desenho em preto-branco. As cópias de quadros de artistas famosos são muito terapêuticas. E há o desenho de forma, que é um tipo de desenho muito divulgado na pedagogia Waldorf inspirado nos desenhos greco-romanos, celtas e na própria natureza. A escolha sobre qual técnica será aplicada em cada paciente é a seguinte: cada técnica visa a um adensamento ou a uma liberação de energia. Por exemplo, um psicótico, uma pessoa que está muito fora, não deveria pintar no molhado. A água propicia uma soltura, um devaneio, uma liberação de forças. No caso dessa pessoa, queremos trazê-la de volta. Então é recomendável a argila, porque o barro, a modelagem e a tridimensionalidade permitem trabalhar muito mais no concreto. A pintura é uma técnica bidimensional e muito ilusória. A terceira dimensão aparece na bidimensionalidade. Já na argila, as três dimensões são muito mais concretas. A pessoa amassa, faz força, o que vai ajudar nos processos encarnatórios, a trazer de volta à consciência. O trabalho mesmo de amassar, de alisar, de fazer arestas, isso tudo traz de volta a pessoa para uma situação mais concreta. Mas, por exemplo, uma mulher em gestação não deveria fazer modelagem porque dentro dela as forças de criação já estão atuando. Ela precisa dessas forças para formar, dentro dela, uma criança. Para ela, então, é muito indicado pintar molhado, pela umidade, pela soltura, pelo aconchego que essa técnica pode dar. Por outro lado, num surto psicótico, a primeira coisa que fazemos é preto-branco em carvão, que é um elemento vegetal, extremamente terra. No papel, esse contato do preto com o branco favorece o aperecimento da consciência. Nesse trabalho, tudo fica mais claro. O que é preto é preto, o que é branco é branco, o que é cinza é cinza. Para pacientes que não estão em condições de manipular o barro, o velado é mais concreto e tem, praticamente, o mesmo efeito da argila. Existe, também, o trabalho em tear que é ótimo, porque no tear existe a urdidura, na qual os fios estão todos na vertical e a pessoa vai preenchendo essa estrutura com cor, com a navete, vai tecendo. É uma sensação muito bonita, é como estar tecendo a própria vida. O paciente sente que o trabalho vai crescendo, percebe as opções que vai fazendo. É muito bonito acompanhar o paciente tecendo. Quando termina, ele próprio está muito preenchido. Dentro de uma lógica na qual a vida é favorecida e cada um faz a sua textura. Existe mobilidade na horizontal, mas o que está na vertical já está ali, são padrões fixos que encontramos ou desenvolvemos na vida.

O que a Terapia Artística tem de terapêutico e o que tem de artístico?

A Terapia Artística é um processo simultâneo. A arte é a terapia e a terapia é a arte. O problema maior é a formação dupla do terapeuta, porque ele precisa ter a formação artística para saber entrar em contato com as qualidades e os temas da arte e tem que ter uma formação como terapeuta, porque um artista não é um terapeuta. A minha crença é essa: a arte, por si só, não cura, a não ser quando ela é dirigida e tratada como um elemento com possibilidades terapêuticas. A minha visão é a de que se uma pessoa ficar pintando só o que ela expressa, só pintará a própria patologia. Os grandes artistas estão aí para mostrar que isso é verdade. Quando vemos uma retrospectiva de certos artista, podemos entender até por que alguns deles se suicidaram. O artista que se suicida entrou em um "caminho sem volta". Expressa isso artisticamente, mas não soube encontrar a libertação. Não é a arte que causou o adoecimento. O artista só ficou expressando e repetindo a patologia, não conseguindo sair, encontrar aquela cor complementar de que precisava ou a luz que procurava. Portanto, o artista que for um terapeuta precisará ter sólida formação terapêutica, ou deverá ser um terapeuta com profundos conhecimentos artísticos.

Que conhecimentos artísticos e terapêuticos é preciso ter?

O ideal é que a pessoa passe por um processo de formação artística em uma escola de arte, onde aprenderá a lidar com as cores e as formas. É como a pessoa que tem bela voz e precisa passar pela aula de canto. Precisa passar pelo processo criativo, assimilar o processo artístico e não conhecer a teoria apenas. Tem que pintar muito e, com essa formação, seria feito um caminho terapêutico, do conhecimento do ser humano físico e anímico. É preciso ter amor pelo ser humano. E então relacionar os dois campos, o artístico e o terapêutico. Será que um pintor sabe onde fica o fígado? O terapeuta precisa saber.

 

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